Crescer é um processo curioso....
Cada época pensamos saber mais que as anteriores. O conceito de amor vai se transformando no tempo, conforme experiências que vivenciamos ao longo da vida. Durante muito tempo, eu entendi que amor era poesia... E sorvi versos, sentimentos, sofrimentos de poetas de muitas épocas... Como temos aquilo que acreditamos ter, tive direito a TUDO - musos, príncipes, sujeitos indubitavelmente saídos dos clássicos de literatura em beleza, ritmo, música... Foram anos assim... A cada vez que surgia alguém que despertava meu interesse, eu tratava de aprisioná-los em meu diário literário! E eles também deixavam se aprisionar, eram vaidosos demais para perceberem que eu os manuseava como queria – a poesia - meu brinquedo de amar!
O tempo passou. um, três, cinco, dez anos... E eu seguia aprisionando meus musos, como uma rainha má. Até que conheci um sujeito – não era muso, tampouco príncipe, mas tinha qualquer coisa – um eclipse- que me devolvia à atmosfera tão conhecida. Então, entoei meu canto de Bela, o prenderia em minha cela, arcabouço de aprisionamento onde residiam todos outros que se deixaram envolver por meu canto... Mas, ele não era muso, nem príncipe, ele devia ser o famosíssimo rapaz de outra cidade, conhecido por desvendar verdades de meninas, moças, mulheres saudáveis... Por mais que eu cantasse meu canto romântico e agudo, mas ele depreendia os efeitos de sentido do mesmo....
O corpo dele brilhava a cada vez que eu cantava e meu canto se tornava mais rouco... Inexplicavelmente, ele foi assumindo meu posto – de rainha – tornando-se o rei da situação. A sua astúcia fazia-me pensar que eu ganhava, quando, na verdade, eu já estava aprisionada! Ele libertou todos seus companheiros... Musos, príncipes, guerreiros, que foram meu sol no passado, agora eram velhos aparatos, geringonças armazenadas em passado tão insosso que eu nem gostava de lembrar. Mas ele não, ele alcançou o patamar que queria, desde aquele dia que nos vimos por primeira vez na avenida... Ele decifrou meu segredo e suprimiu meu canto! Agora, eu vivia infeliz pelos cantos, por não saber o que cantar... Ele descobriu todos os odes, versos, sonetos outrora confeccionados tão perfeitos para disfarçar o meu desejo... Ninguém nunca me descobriu, sempre fui muito competente no que fiz... Mas, agora, com minha face descoberta, é tão pouco especial sair à janela e cantar o amor!
Meu conceito de amor mudou e acho que para sempre! Eu era tão feliz, tão onipotente no modelo anterior... E agora que tudo se desfacelou, a imagem do príncipe liquefez, espero os dias passarem, e de alguma forma a vida se refazer outra fez!


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