Ponto de Vista
A misteriosa fragilidade dos vínculos humanos, o sentimento de insegurança que ela inspira e os desejos conflitantes (estimulados por tal sentimento) de apertar os laços e ao mesmo tempo mantê-los frouxos, é o que este livro busca esclarecer, registrar e apreender.” (BAUMAN, 2004, p. 8).
Cilada.com é um filme brasileiro, comédia romântica, muito engraçado. O cinema tão cheio assim, só vi na série Crepúsculo e nas estréias de Harry Potter. Trata-se da história de um sujeito (Bruno) que trai a namorada (Fernanda) e para vingar-se do mesmo, ela posta no youtube o vídeo com a transa de menor tempo, ejaculação precoce por parte do parceiro. Evidente, que o número de acessos se torna surpreendente, acarretando em inúmeros prejuízos para a vida social do sujeito em questão.
A comédia transcorre sedimentada nos estereótipos corriqueiros do cinema brasileiro - sexo, palavrão, preconceitos diversos de ordem étnica, racial. O Marconha (representeado pelo Serjão Loroza), personagem negro, estava ao lado do ridículo com as nádegas enormes, o peitoral desproporcional, o corpo nu (...). Outro aspecto que me chamou atenção foi na busca do personagem principal por toda e qualquer via de solução para o problema, encontrou a casa de um pai de santo, representante das religiões africanas, e com bastante deprecio represnetado, o sujeito era “trambiqueiro”, e ficava fingindo receber algum tipo de entidade.
Mas o que proponho a analisar mais detidamente é o aspecto romântico. Pois, após sentir-se extremamente atingido pelos efeitos da ação de Fernanda (a namorada), Bruno que até então tinha uma extrema dificuldade de dizer “eu te amo”, começa a refletir em seu relacionamento. Após as tentativas frustradas de convencer o mundo de que a ejaculação precoce, a rapidinha, foi uma gravação infeliz, ele decide investir em Fernanda, como um novo projeto romântico.
O curioso, é que sempre discutimos que o romantismo tal qual aprendemos nas escolas literárias não teria espaço nesse momento em que vivemos, mas, é ressignificado. Fernanda queria ouvir “eu te amo” a qualquer custo. Bruno não sabia como dizer. A mim me pareceu um relacionamento pós-moderno, ou quiçá, como denominam os especialistas um amor fast-food. Bruno precisava melhorar sua imagem social. As reflexões, feitas por ele, mostravam quão poucas eram suas possibilidades de retomada, ele se mostrou ao longo do namoro um homem tão pouco ideal no relacionamento, era desatento, grosso, em certa medida, e transava mal, sempre! Mas Fernanda o amava!
Um relacionamento, conforme o especialista, é um investimento como todos os outros: você entrou com tempo, dinheiro, esforços que poderia empregar para outros fins, mas não empregou, esperando estar fazendo a coisa certa e esperando também que aquilo que perdeu ou deixou de desfrutar acabaria, de alguma forma, sendo-lhe devolvido – com lucro.”(BAUMAN, 2004, p. 28). Nessa perspectiva, os recursos utilizados por Bruno no investimento do seu projeto romântico foram cartazes, vídeo e áudio para dizer o tão esperado “eu te amooo”.
A platéia vibrou nas poltronas do cine. Era evidente a nossa condição romântica. O romantismo funcionava nessa comédia romântica e pós-moderna como a catarsis, embora as pessoas tivessem se divertido bastante, era esperado o momento clímax, representado pela consolidação do amor da nossa era "frágil, frouxo, líquido". Foi ótima a representação desse amor construído que, nós ocidentais, aprendemos a cultuar. Construção tão bem elaborada que está diretamente associada ao ideal de felicidade, se, por ventura, o ator principal não cumprisse a sua função ideal, muito provavelmente, a obra não teria tido o desfecho com chave de ouro.
Em suma, a produção foi muito deconstraída, uma boa pedida para um fim de semana!


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