Diario de Bordo
“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos”.Fernando Pessoa
Essa é uma fase especial em minha vida; é lógico e óbvio pra todos que têm vida... Mas pra mim, é a primeira vez em que passo por um momento de travessia, de assumir meus pontos (difíceis) de vista. Com efeito, o mais difícil é a caminhada. Decisão acertada? Aquela que atende aos nossos desejos... Daí, olhamos pra trás e verificamos o porquê de nos sentirmos meio esvaziados com a ação do tempo... Podemos fazer o melhor plano pros familiares, pros amigos, pro namorado (a) , mas se o nosso não está em primeiro plano... Não adianta, o brilho no olhar, a vontade de mudar ficam limitados...
Mudança no campo afetivo, mudança na profissão, mudança na forma de ver a vida.. Me sinto feliz, porque acho que a melhor rota é aquela escolhida por nosso coração. Sem namorado, sem muso... É uma constatação!
Eu gostava do muso. Mas eu não podia insistir pra ele ficar, ainda se quisesse, eu violaria meu plano de liberdade. Eu ligaria, insistiria, e construiria uma história tão conhecida, a do escravo, vassalagem amorosa... Ah, quando arranquei a página indecorosa de erros cometidos em minha vida, já sabia que ainda me encantaria quantas vezes fossem possíveis e precisas... Mas minha alma não podia ser leiloada a cada viajante que aparecesse.... já pensou?! Como diria o Cordel do Fogo Encantado “ai, se sêsse”!
Podia ser egóico pro mundo, mas o sentimento que eu estava sentindo por mim era especial, utilizando expressão odiada por minha avó, eu estava “curtindo”... A mim mesma! Ao meu estado de solidão. Passei pela vida como medo de sentir- me só até descobrir que solidão é um estado de espírito...
Amanha, comprarei meu novo caderno... Caderno pra mim é como semente anuncia sempre um porvir, voltar a estudar com afinco, me parece um projeto vivo.. Como nunca me sinto trocando as roupas usadas. Eu não sabia em que resultava ou resultaria esse meu empreendimento juvenil, mas estava segura de que em qualquer lugar em que eu chegasse valeria a pena de não ter ficado no projeto alheio, eu havia tentado! Eu rompi a casca do ovo da obra de Salvador Dali. Eu estava feliz... Eu estava vivendo! Nessa incessante luta consumidora de estar vivo!


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