lunes, 25 de abril de 2011

Ninguém escapa

"Ai, que saudade que tenho da minha aurora querida, dos anos anos de minha vida que os tempos não trazem mais". Casemiro de Abreu

O poeta já havia dito que tempo é ponto de vista. Concordo, fazia um tempo que eu vinha refletindo acerca do que é envelhecer. Confesso que se trata de um dos poucos assuntos que mais me assustam. Isso se explica por diversos fatores, primeiro por eu ter nascido no ocidente e não no oriente, segundo pelas conseqüências dessa última escolha.

Faço parte da geração que devota horas na academia, num sucessivo ritual de culto ao corpo. Danço. Tenho dieta balanceada, tudo isso numa desenfreada obsessão pelo corpo perfeito. E assim, vamos abrindo mão daqueles momentos de interação com os mais velhos. Aqueles instantes relevantes de sabedoria, em que ter os cabelos brancos fazia toda a diferença na análise de um problema... Saudade, de quando era entendido que os valores éticos estavam nas mãos dos mais velhos. Quer sim, quer não, havia uma ordem social mantida, as pessoas se respeitavam mais, se ouviam mais(...). Eu nem encerraria a lista de tanto saudosismo sobre esse tempo bendito.

Ocorre que hoje, ter cabelo branco é mais sinônimo de preocupação do que de sabedoria. Preocupação com o desrespeito dos direitos desse grupo da terceira idade. Como a dificuldade, por vezes, enfrentadas para ocuparem seus lugares que lhe são de direito sob a marca de prioridade. São desrespeitados no ônibus, nas ruas, em casa por familiares. Não temos uma cultura de abraçar o idoso. Logo num momento em que as pesquisas mostram que estamos envelhecendo mais, ainda nos deparamos com tantos problemas. Daí, olhamos pro globo e vemos os nossos vizinhos japoneses alcançando os cem anos com qualidade de vida. E, então, percebemos que é preciso nos moldarmos às necessidades futuras... Ocorre que somos incapazes de pensar o amanhã, quando só entendemos o agora. Assim, o Raul tinha razão quando cantava “somos grandíssimo idiotas que só usamos 10% da nossa cabeça animal”.

Quando eu vejo um idoso, sinto a alegria de uma criança ao ver um doce. Sei que na palavra de um idoso residem muitas histórias e me aproximo e me animo. Preciso animar-me para essa causa, usar a força resultante do trabalho na academia para produzir qualidade de vida. Envelhecer bem. Não preciso preocupar-me. As empresas de cosméticos estão ai, para atender as demandas capitalistas – cremes faciais, massagens, exercícios só adiam os nossos dias de ignorância por aqui. Imagino que plano medíocre traçamos para nossa vida ao desejarmos nascer, exibir-nos e morrer, não?! Às vezes me pego assim pensando tantas tolices, se houvesse aqui um idoso sem deslizes me contaria a moral dessa história... Enquanto isso, vou ajudando a construir essa árdua realidade da qual fazemos parte, todos cidadãos engajados com essa causa social, pois podemos fugir do estereótipo de ser mulher, do negro, do gordo, do homossexual, mas do idoso, baby... NINGUÈM ESCAPA!!!!

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