Ritmo Unissex

“Toda menina que enjoa da boneca é sinal de que o amor já chegou no coração”.
O xote de Luiz Gonzaga embalou e embala muitos São Joãos do nordeste brasileiro. Nesse ritmo abrasivo, é possível identificar o papel e o lugar feminino em recortes distintos no Brasil. Nessa medida, estabelecer paralelos entre o ontem e o hoje é atestar a desconstrução, a revisão e a reconstrução do que é ser homem/mulher na sociedade contemporânea.
Evidencia-se, com clareza, que no início do séc. XX, ser homem e ser mulher era ter papéis sociais claramente delimitados, seja pelas funções atribuídas pelos comportamentos exercidos, seja pelas vestimentas, dentre tantos outros mecanismos de delimitação. Assim, como ilustra o fragmento da música, a boneca, recurso de divertimento das meninas, já demarca o lugar da mãe, dona de casa, com funções relacionadas à sensibilidade “característica e propícia” da mulher. Desse modo, as diferenças de gênero estavam associadas ao biológico para a determinação do meio social.
Nessa perspectiva, evidencia-se que com uma série de mudanças ocorridas nos últimos 50 anos, houve uma desconstrução dos lugares de homem/mulher estabelecidos pela ordem patriarcal, acompanhada de uma revisão desses papéis. Essa revisão é fundamentada pelos fatos históricos – a II Guerra Mundial, necessidade de mais mão de obra feminina, Revolução Feminista, todos esses eventos contribuíram para a diluição das barreiras determinantes do que é ser homem/mulherna sociedade plural e capitalista brasileira. Assim, hoje se vive a fase da reconstrução desses valores que definem o gênero – mulheres assumem gerências ou presidencias (Dilma Roussef, Cristina Kirtnen), homens arrumam a casa, fazem comida.
Desse modo, mulher “enjoando da boneca” ou brincando de carro no nosso tempo determina apenas que homens e mulheres possuem diferenças que ultrapassam a forma física. Assim, são necessárias a constante revisão e reconstrução desses papéis culturais outrora estabelecidos.


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