Ficar ou beijar eis questão!
Na geração contemporânea, as pessoas não mais namoram como antes, como uma premissa do casamento, elas ficam... Isso não atesta que sejam mais ou menos felizes, isso atesta uma mudança comportamental dos jovens e adultos dessa geração. Eu acho o ficar dos jovens uma maravilha, nesse me deleito em todas as fantasias, em braços e abraços que tampouco conheço, enlevo que me saca do marasmo literário para ação cotidiana.
O ficar envolve a saliva do desconhecido, a magia de um idílio construída em todos meus textos. O ficar não envolve o mais bonito, porque a esses, geralmente, falta coragem, a ousadia necessária de tomar-me em um beijo. Existirão aqueles que me tirarão pra dançar, há outros que até conseguirão se aproximar, falarão de dados históricos, de geografia, de contabilidade, eu os ouço, todos, pacientemente. Faço isso para melhor contemplar o espetáculo, daqueles que chegam sem nenhum embaraço, com poucas palavras, quiçá pouco entendam de cultura enciclopédica, mas trazem na esfera de seu ser a ousadia singela e mordaz que me satisfaz e assim me silenciam com o explosivo beijo de poesia.
Entre lágrima e salivas não há melhor poesia que constitui a minha vã filosofia – a de ficar, beijar e me entregar em braços e abraços que tão pouco os conheço... Um desejo de outros tempos! O ficar não reúne medos. A entrega, a espera, tudo se processa muito rápido, o calor afetivo de um abraço, as palavras mais açucaradas são premissas básicas para a realização do beijo. O beijo é uma explosão de quereres, de fantasias, de sensações fugazes de virar sorvete entregue ao outro. Exercício de pele, de corpo, de ações que explodem em afetividade! Beijar é muito bom!
O bônus do ficar ainda está no dia seguinte. A sensação descartável de que nada aconteceu. No celular, possivelmente, existirão algumas chamadas, ou quiçá uma mensagem de texto do quanto o ocorrido foi bom. Mas o ficar não volta, não tem texto, não tem resposta, apenas uma lembrança saborosa, pra ser retomada em qualquer exercício de prosa. Isso porque ficar/beijar é bom demais e até poderíamos afirmar que é uma das maiores contribuições/invenções das gerações contemporâneas.


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