Eu queria
EU queria muito voltar a
escrever, eu queria me envolver com a arte do desconhecido, decifrar as
palavras do indizível e voltar a sonhar. Eu estava farta da sanidade dos
adultos, vida tão certa e cheia de regras; eu queria aquarelas, eu queria
navegar no fundo do oceano e vê outros planos... Eu precisava me apaixonar, não
essas paixões que se encerram com sexo sem poesia. Eu queria o lampejo dos
loucos, queria me entregar corpo a corpo a algo que me devote por inteiro: o
texto! Mas eu tinha medo! E quando eu quisesse voltar? E se eu me apaixonar? E
se o que parecia liberdade me aprisionasse?
O texto era o terreno da minha
fantasia. Eu sabia até onde ela ia. Mas se o texto não terminasse? Se acabasse
a minha arte? Jamais teria as respostas se eu não sucumbisse à vontade de
escrever. Se eu não me entregasse a esse desejo instintivo, que me visita com a
inconveniência de determinadas partidas; eu estava cansada de fechar a porta
para meu convidado mais esperado, o verso raro que senta e toma café comigo, me
fala sobre vida, destinos, não me oferece um presente material, mas desenha-me
sempre na face um sorriso de menina do colegial.
Eu decidi sustentar essa vaidade,
que viessem as consequências, adversidades. Porque o escritor é um sofredor, sofre
todas as dores do mundo. Sofre porque recria a realidade, e na recriação, ele
leva brilho nos olhos que é verdadeira emoção, chama que consome tudo que passa
de importante e de vão. Eu quero ser essa chama, que clama, faz barulho, produz
vida. Escrever, definitivamente, me envolvia! E o oxigênio dessa chama é VOCÊ.


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