Dica
“A expectativa do que será muitas vezes é bem melhor que a realização do que esperávamos”
Dica havia descoberto naqueles últimos meses de ano tão generoso em sua vida que a empresa do coração lhe gerava poucos benefícios e muitas dores de cabeça. A grande questão é que aquele era o único negócio que Dica sabia, ou melhor, devia saber gerenciar... Os sucessivos insucessos nessa área demonstravam que era hora dela mudar de ramo, sobretudo nessa fase da vida - em que a beleza natural dos anos juvenis – contribui com facilidades convidativas para o ingresso em outras firmas.
O leitor bem informado já deve ter percebido que Dica era mais uma leitora romântica de conto de fada, que esperava encontrar nas relações reais o correspondente de suas fantasias. Tal desejo, no entanto, embora sempre revestido de novidades, era sempre desconstruído pela imprecisa matéria que constitui as relações humanas: a do interesse único e exclusivamente carnal pelo outro, desprovido de sentimentos puros e verdadeiros.
Dica era uma mulher morena, típica dos contos realistas/naturalistas, imprimia os desejos mais lascivos nos homens de seu tempo. Tudo na pele dela era convidativo: a cor, as curvas, as pernas torneadas, lábios carnudos, que inspiravam beijos de muito desejo. Mas, como a empresa do coração parece construída de areias movediças – o que sobrava no corpo – faltava no comportamento – coragem, atitude e vivência com os rapazes que a envolviam. Assim, Dica, como todos iniciados no ritual de amores, envolveu-se com a poesia e dedicava horas na construção de imagens textuais que careciam mais de vivência que de rima. E foi assim por dez anos, a cada rapaz que Dica conhecia, tratava de imediato de cristalizá-lo em suas produções. Preso ao papel, este oscilava de gênio a muso. Desprovido das características reais de másculo, desejoso de tocar pele tão atraente, os musos eram engolidos pela ação do tempo em variação imprecisa. Mas, como diz o dito popular – tudo tem seu tempo...
Hás de recordar o que foi dito sobre as dores de cabeça de Dica. Essas advinham dos conflitos dela com a caneta e o papel, já que aos seus musos quase nunca lhe eram dadas oportunidades de fala. Contudo, o último muso, possuía característica de um herói épico, diferentemente dos descorados musos anteriores, esse tinha uma cor que inspirava os desejos mais ardentes, reunia uma força hercúlea, e em oposição a todos, este jamais lhe escreveu uma linha, jamais lhe disse uma frase de cortesia e Dica viu que, finalmente, era necessário dar vida aos seus escritos, colorir sua coragem e conquistar tão indócil coração. Ocorre, como dizem, que coração do outro é terra de ninguém... E, embora entusiasmadíssima para participar daquele empreendimento, o senhor daquelas propriedades já havia elegido sua senhora. E, Dica, finalmente, convenceu-se do conforto de seus escritos! Por mais tristes, tinham sempre final feliz.
Dica está agora cada vez mais envolvida em sua escrita. Quase nada a tira de sua concentração. Pobre Dica, tão bonita e devota à solidão daqueles que esperam da noite um clarão que promova a mudança, quando a mudança está na simples decisão de dizer SIM pra vida e NÂO pra essa solidão que acomete poetas e artistas nessa imensidão que é viver. Dica precisava entender que não há mistérios a dica é – deixar fluir! Não se evadir, mas permitir que o novo aconteça e permaneça em sua vida a cada amanhecer.


0 Comentarios:
Publicar un comentario
Suscribirse a Comentarios de la entrada [Atom]
<< Página Principal