A palavra me surgia
como acontecimento inusitado. Inspirada pelas teorias de Freud e Jung eu me
enchia de disposição para realizar o meu desejo. E o que era meu desejo? Era
tornar real uma ilusão capturada por meu olhar. Ocorre que para tal realização
eu dependia do outro. Eu tinha que passar por cima de minha vaidade, ainda
crendo que esse grande outro não era merecedor de tudo isso!
As leituras me permitiam
perceber que o meu desejo se sobrepunha ao que outro pensasse. Embora fossem
conhecidas as tantas razões do outro dizer não, já tinha aprendido o pouco
valor dessas respostas a longo prazo. Valia, nesse momento de estudo, a
percepção de que meu corpo assumia diferente energia e disposição para o
trabalho ao falar com o garoto (metido, exibido, indiferente). Escrever para
ele, minha forma de comunicação, devolvia-me a disposição para estudar e
estimulava a trabalhar vorazmente em práticas que geralmente eu odiava. Isso me
inquietava.
Lia um material que
mostrava a o estímulo neuronal que a ideia de um amor promove dos olhos ao
cérebro. Feito um adicto, a sensação da lembrança acionada em algum gesto do
outro, se plasma como um desejo que insiste em realizar. Daí, vale lembrar do
amor espiritual e do amor sexual. O
primeiro faz referência ao sentimento de belo e, dificilmente, encontra
realização no sexo.
Daí, eu começava entender
porque ele era tão especial (singelo) para mim. A primeira vez que o vi,
aqueles olhos (azuis ou verdes?) era noite, me conduziram para outro tempo,
quando ele me disse que era poeta. Eu não conseguia acreditar na casualidade
que nos uniu. Eu quem descobri – no sabor do beijo, o sabor de poesia! E, embora
o tempo tenha passado era sempre uma epifania reviver aquele momento.
A lembrança real dele
era quase esmaecida em meus pensamentos, apenas um conceito volitivo de
beleza. Mas, a sua natureza era algo assim de todo especial. Ainda pertencendo
à condição cosmopolita, eu queria buscá-lo. Intento de alcançar o vento. Mas
isso me alimentava. E, feito plástica, rejuvenescia minha pele, atraía outros
olhares. Essa era minha forma (estranha) de sentir-me amada e que venho
praticando há anos, sem teoria nem nada. Mas Freud diz que a vida é o que é o
é. E cada neurótico encontra a sua forma de enfrentar a vida – de frente – como
ela é! essa é a minha!


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