jueves, 26 de mayo de 2011

Flores Vermelhas


Começava o dia. No ônibus uma mulher acenava desesperadamente. A figura daquela mulher me envolvia em lembranças deferentes. A primeira mulher que me ofereceu flores vermelhas, confeccionadas por suas mãos de artesã. E eu me perguntava quanta poesia habitava naquela que imitava a arte de forma tão bonita.

Era uma nova fase em minha vida, era uma fase em que as flores se alternavam com as dores do quadro de Salvador Dali. Sair do ovo, conforme expressa a pintura era sempre uma questão existencial muito acentuada. A vida não é, nem nunca foi fácil, as flores são válvulas de escape que atenuam o desejo. Quantas vezes perguntei aos meus alunos “onde está o seu desejo”. Os olhos dos meninos brilham, em tradução absoluta, lê-se se-xo! O das meninas alterna entre o desejo da carne, a longas esperas do “amante à moda antiga do tipo que ainda manda flores”, há aquelas que suspiram pelos ardores da profissão.

Em meu coração, ainda é muito difícil definir meu desejo, onde quero, ou devo estar. Sexo, universidade, qualquer lugar. E isso me preocupa, porque Shakeaspeare já afirmava “quando não se sabe aonde vai, qualquer lugar serve”. É preciso definir o desejo. O desejo é a bússola que nos move no desespero da vida cotidiana. As flores são véus importantes, para, como seres pensantes, descortinarmos as verdades do mundo real em camadas, em pausa, de como deve ser... As flores mantêm suspensas as dores. Elas estão no jardim, no sorriso de uma criança, em uma ilusão vã e sem relevância de que o outro pode nos conceber aquilo que temos por obrigação de promover – a felicidade. E agora que tenho tão firme a lembrança da artesã que me ofereceu flores vermelhas, as busco em minha alma, e meu romantismo não acalma, bifurca em tantas outras dores existenciais.

As flores vermelhas ainda presentes e consistentes na escrivaninha do meu quarto apontam a constante necessidade de reencontrar, redefinir, avaliar o desejo. Para, assim, “decorarmos nossa alma” com cintilantes e não vacilantes pétalas vermelhas, fazendo a beleza de confecções alternadas pelo que nossa alma realmente pulsa em absoluta sintonia com a vida.

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