viernes, 18 de noviembre de 2011

Travessia individual

Se agradar ao leitor, era a premissa dos escritores da época, tudo indicava que Ana não seguiria esse ofício. Embora amante das letras, ela insistia em contrariar aquele que a lia com seu estilo ultrapassado de romântico pós-moderno. As críticas advinham dos pontos mais eqüidistantes da terra. Mas, parece que Ana estava mesmo a fim de atender aos seus interesses, impulsos líricos, que atender às necessidades do seu público consumidor.

A explicação para o comportamento de Ana não reunia nenhum tipo de complexidade. Ela entendia a exigência dos amigos no tema da sua escrita como uma limitação de sua liberdade. E, nesse sentido, era irresoluta com o querer coletivo, já que para Ana a perda da liberdade é um processo gradual na vida do sujeito desde que nascemos – a restrição no pensar, no dizer, no comportar-se - individual, familiar, social. Uma vez adultos, restavam poucas formas de ser livre, o trabalho? As idéias proferidas nos centros acadêmicos? Tudo é limitação!

Na escrita, Ana encontrava o pôr do sol dos apaixonados, o sorriso afável no semblante do recém-nascido ou a palavra sábia do ancião. Quiçá, um dia ela ouvisse o conselho dos amigos em escrever sobre o PIB do país, o aumento da inflação, a marginalização de crianças e adolescentes, o aumento da desigualdade, o aborto, as redes sociais, a alteridade (..). Um dia podia fazer isso. Mas ela pensava sempre consigo que tanto gente vinha fazendo isso há anos? E o que havia resultado?

Dessa maneira, Ana escrevia de modo egoísta? E que romântico não o é? Ana escrevia para limpar a vidraça do seu ser, para fazer o motor frio do seu carro aquecer e irromper com essa inércia, própria dos veículos cansados das trajetórias percorridas na vida. Escrever era uma forma de imortalizar seu olhar sobre o belo, sobre o novo, sobre o porvir. O conflito com a opinião alheia antecede à própria escrita de Ana, mas o conflito gera desafio, e este estabelece o sentido de viver.

Ana estava mais uma vez diante do portal que separa os dois mundos no plano mágico – seguir ou silenciar. Ocorre que o silêncio, em curto prazo, mais fácil, já foi adotado por ela em outros tempos, tempo em que entristecida pelos cantos, nada a fazia suspirar. A recordação disso a fez lembrar da importância de ouvir a voz interior. Escrever estava dentro da esfera dos seus sonhos. E lutar por eles, era cultivar as janelas do seu jardim e a qualidade do seu oxigênio. Contar com um ou nenhum leitor era uma possibilidade, mas encontrar sentido para vida era tornar a travessia mais agradável de ser navegada!

0 Comentarios:

Publicar un comentario

Suscribirse a Comentarios de la entrada [Atom]

<< Página Principal