domingo, 8 de septiembre de 2013

Mal estar da civilização - Freud

"Outra técnica para afastar o sofrimento reside no emprego dos deslocamentos
de libido que nosso aparelho mental possibilita e através dos quais sua função ganha
tanta flexibilidade. A tarefa aqui consiste em reorientar os objetivos instintivos de
maneira que eludam a frustração do mundo externo. Para isso, ela conta com a
assistência da sublimação dos instintos. Obtém-se o máximo quando se consegue
intensificar suficientemente a produção de prazer a partir das fontes do trabalho
psíquico e intelectual. Quando isso acontece, o destino pouco pode fazer contra nós.
Uma satisfação desse tipo, como, por exemplo, a alegria do artista em criar, em dar
corpo às suas fantasias, ou a do cientista em solucionar problemas ou descobrir
verdades, possui uma qualidade especial que, sem dúvida, um dia poderemos
caracterizar em termos metapsicológicos. Atualmente, apenas de forma figurada
podemos dizer que tais satisfações parecem ‘mais refinadas e mais altas’. Contudo,
sua intensidade se revela muito tênue quando comparada com a que se origina da
satisfação de impulsos instintivos grosseiros e primários; ela não convulsiona o nosso
ser físico. E o ponto fraco desse método reside em não ser geralmente aplicável, de
uma vez que só é acessível a poucas pessoas. Pressupõe a posse de dotes e disposições
especiais que, para qualquer fim prático, estão longe de serem comuns. E mesmo para
os poucos que os possuem, o método não proporciona uma proteção completa contra o
sofrimento. Não cria uma armadura impenetrável contra as investidas do destino e
habitualmente falha quando a fonte do sofrimento é o próprio corpo da
pessoa.Enquanto esse procedimento já mostra claramente uma intenção de nos tornar
independentes do mundo externo pela busca da satisfação em processos psíquicos
internos, o procedimento seguinte apresenta esses aspectos de modo ainda mais
intenso. Nele, a distensão do vínculo com a realidade vai mais longe; a satisfação é
obtida através de ilusões, reconhecidas como tais, sem que se verifique permissão para
que a discrepância entre elas e a realidade interfira na sua fruição. A região onde
essas ilusões se originam é a vida da imaginação; na época em que o desenvolvimento
do senso de realidade se efetuou, essa região foi expressamente isentada das exigências
do teste de realidade e posta de lado a fim de realizar desejos difíceis de serem levados
a termo. À frente das satisfações obtidas através da fantasia ergue-se a fruição das
obras de arte, fruição que, por intermédio do artista, é tornada acessível inclusive
àqueles que não são criadores. As pessoas receptivas à influência da arte não lhe
podem atribuir um valor alto demais como fonte de prazer e consolação na vida. Não
obstante, a suave narcose a que a arte nos induz, não faz mais do que ocasionar um
afastamento passageiro das pressões das necessidades vitais, não sendo
suficientemente forte para nos levar a esquecer a aflição real.
 Um outro processo opera de modo mais energético e completo".

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