jueves, 28 de abril de 2011

“Eu gosto de ser baiano, ai, ai, Bahia”

Chove em Salvador e me deparo com as mesmas cenas de minha infância, ruas alagadas, desabamentos, desabrigados... Mas não é sobre esses “acasos” que desejo comentar. O que chama minha atenção é a quantidade de pessoas que têm ocupado as ruas da cidade como moradia. São homens, mulheres, crianças, constituem famílias inteiras na Piedade, nas ladeiras do Pelourinho, da Lapa, na Barra. Miséria e opulência coexistem na capital da Bahia. Terra da alegria do Senhor do Bonfim.

Nessa terra caracterizada pela magia e pela cordialidade, uma imagem que atrai e conquista tantos turistas, contrasta com a necessidade básica de seu povo. Um povo ora caracterizado pela riqueza cultural, de onde saíram imortais mestres da literatura como o Boca do Inferno, o Poeta dos Escravos, a terra de Jorge Amado, uma terra que se destaca pela música, por seu ritmo, pela ginga dos capoeiristas, pela culinária singular, que tem no acarajé e no vatapá o gosto do dendê, e do calor de ser baiano, ah e uma arquitetura colonial sensacional que encanta tantos olhos além da Baía de Todos os Santos...

Eu jamais negaria todos valores artísticos atribuídos à Bahia. Na verdade, sinto uma alegria indizível em ter em meu registro, que nasci na capital da Bahia, Salvador, lugar de esplendor, para quem a acompanha pelas antenas de TV. Já que o sorriso expresso nas propagandas de turismo não é tão acolhedor com o mendigo. Ao ver uma família inteira hoje na Barra, cuja criança devia ter aproximadamente três anos com aquele olhar perdido, de quem fitava o infinito, manifesto no carro azul de luxo parado a sua frente, eu percebia que a invisibilidade sofrida por aquele pequeno ser – me fazia compreender o que o Renato Russo quis dizer com “que país é esse”.

Seguramente, esses moradores terão uma outra representação da Bahia. Uma Bahia injusta e desigual para eles, e para seus antecedentes, dando assim continuidade a um processo de pobreza histórica. Daí há estudiosos que defendem que a Bahia está muito mais para o descobrimento que para o século XXI. As misérias, o descaso com a educação, a ausência de políticas públicas consistentes que atendam a esse povo legado à marginalização ainda não são prioridades nos planos de nossos representantes. Eu queria muito acreditar no Senhor Bonfim, Oxalá, Alá, Jeová, Buda, qualquer entidade espiritual das tantas que caracterizam nosso sincretismo religioso de que as coisas vão mudar...

Ai, como eu queria, porque, daí sim eu diria que essa magia que há na Bahia e não encontrada em outro lugar é para todos e não para poucos que podem consumir, usufruir dessa graça particular de ser baiano... Isso, sim, seria dizer “eu gosto de ser baiano, ai, ai, Bahia”.

0 Comentarios:

Publicar un comentario

Suscribirse a Comentarios de la entrada [Atom]

<< Página Principal