Bagunça no interior do quarto
A conquista da liberdade é algo que faz tanta poeira, que por medo da bagunça, preferimos, normalmente, optar pela arrumação. Andrade, Carlos Drummond de
Ontem à noite, decidi arrumar meu quarto, eis tarefa mais que difícil – desfazer dos papéis velhos – organizar cada coisa em seu lugar. É uma tarefa que demanda tempo, já que se desfazer das lembranças é sempre momento de muita relutância. Por isso, minha mãe reclama tanto da bagunça em meu quarto. Curioso é que nesse caos em que me encontro, mudanças não são opção, traduzem-se numa imposição inconsciente de crescimento.
Encontro poemas, cartas, recordações várias e um desejo meu incessante de fazer-me melhor a cada reescrita. Achei tão bonito o feito de reescrever sempre para melhorar-me que identifiquei mais acertos que erros em minha trajetória. E já concluía que independente do pouco se faça, a longo prazo é sempre um bom caminho...
Era verdadeiro o desejo de arrumar as coisas, a ordem oferece mais segurança ao ser humano. E, por primeira vez, me parecia realmente que cada coisa assumia o seu lugar. Daí fui sendo tomada por uma falta de ar, ao identificar mais um processo de transição. Mais uma vez eu deixava de ser menina. Era, agora, adulta comprometida com meu espaço.. (Odeio crescer, culto à eterna infância...). Mas Lya Lulft já nos ensina que com as perdas só há uma coisa a fazer: perdê-las. Eu já era mulher... Adeus a infância!!
Eu não ia chorar, mas inegavelmente não era aquele ideal de felicidade que eu havia sonhado. A normalidade me assusta nessa vida maluca, em que quem arruma põe tudo, tudo tão igual... Quero a loucura do artista, quero não achar o livro preferido na estante para encontrar tantos outros nas bibliotecas, Quero jogar fora todos os exercícios em branco, oportunidades não logradas, guardar com carinho os deveres ainda não terminados é sempre tempo de responder ao inusitado. E, finalmente, levar comigo todos rascunhos, pois sei que a releitura dos mesmos fará a diferença na interpretação dos meus textos atuais e vindouros.
É, isso, arrumação sempre mexe tanto comigo que só me dedico a isso em média de quatro em quatro anos, conforme a bagunça, ou em meses, como agora (... ). Não se trata de medo da bagunça, se trata de um caminho à liberdade identificado por meu coração, embora existam ainda tantas dúvidas, acho mesmo que é na solidão que reside minha transformação!


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