“Aprendi com as primaveras a me deixar cortar para poder voltar inteira”. (Cecília Meireles)
A tarde poderia ser a mesma se não fosse aquela conversa. Fazia anos que eles não conversavam. A relação de paternidade, os ensinamentos tinham emagrecido com a ordinária passagem do tempo. Mas naquela tarde, ao perscrutar os olhos de sua filha, ele a tocou sem que fosse preciso dizer uma palavra.
Ele havia entendido na fotografia expressa de carinho entre ela e o amigo que havia uma atmosfera maior que de amizade. E ele não estava errado. O que ele não sabia é que não havia nada consumado no plano material. O convite para uma conversa a deixou desconsertada. Na tentativa de explicar-se, complicou-se, os sucessivos ditos de que o sujeito da foto era só seu amigo, atestava as hipóteses de seu pai, o amigo - um amante às escondidas...
Saíra para trabalhar cabisbaixa, sentiu-se como a adúltera a ser apedrejada da Antiguidade. Era sabido por todos seu idílio nutrido pelo jovem poeta. Era um amor literário, puro e casto. Mas que ela vivia tão intensamente em seus sonhos, que ninguém dizia o contrário.
Fazia tempos que ela vinha tentando esquecer o objeto de seu amor, desde o apagamento de telefones e lembranças à realização de simpatias ensinadas pela sabedoria popular para tal proeza. Mas não conseguia. Ele possuía magia mais forte e o campo de proteção dela não a protegia da veia poética que a invadia a partir da leitura dos versos dele. Bem verdade que ele não a escrevia mais fazia algum tempo, mas todas as frases e letras de canções do passado permaneciam tão presentes que ela floria como as primaveras ao vê-lo.
As pessoas e seu pai contestavam por ela ter namorado. E ela não entendia que relação havia entre esse estado e sua afeição por uma fantasia. Parecia mesmo que as pessoas não viviam. Mas recusava-se entender seus desvarios. Não era mais adolescente. E recordou-se de sua infância, de como seu pai lhe ensinara a importância de ouvir para que haja aprendizagem. Lembrou-se de como foi o desapego do seu primeiro muso, sujeito que ela acreditou piamente ser a melhor pessoa que havia conhecido na vida. Foi brusco. Foi uma ordem. E agora a história se repetia. De vantagem, ela só percebia a lembrança que tem desse muso antigo, embora seja palavra proibida em seu dicionário, a imagem dele é protegida como relicário. Contrariando ao que ele pensava, ela não o esqueceu com o tempo, ele eternizou-se nela.
Como toda mudança ela sabia que seria lenta. E não prometia cumprir... Tentaria como tem feito nesses últimos quatro anos com seu amor-amigo. Sabia não fazer nada de errado. Mas queria que essa ordem vinda de seu pai cumprisse seu itinerário – desautorizar essa poesia/poeta de sua vida. Hoje faz quatro dias que ela não o busca, essa disciplina é dilacerante. Mas passará. Como todas as águas do rio.

