Manhã de sábado
Um socorro pelo amor de Deus,
A menina chora, implora sopro de vida
Alguém atende seu chamado,
Carro, companhia, emergência
Hospital Público, fim do mundo?
A menina senta, espera,
Vomita novamente, esperas...
O tamanho da fila aumenta
Os ânimos dos pacientes também
O que era urgente perde prazo de validade
Mercadoria vencida, a cor evidencia
A origem dos produtos...
Enfileiradinhos são todos iguais
Pretos, pardos, adolescentes, crianças
Animais lançados à própria sorte;
Vindos no transporte há mais de 400 anos...
No rosto da menina, a cor
Quase sem vida carregada por pobres
Necessitados do serviço de saúde
Ilude-se quem pensa – todos iguais!
Crianças brincando no chão do posto
Adolescentes lanchando com gosto,
Em espaço tão inapropriado,
Fracasso do Sistema de Saúde Brasileiro,
Incomoda identificar tantos Brasis
Um marcado pela evolução
Até células-tronco e outros tão primários
Não por acaso entregues à estupidez,
Despreparo dos profissionais...
Fecho a porta de atendimento
Lá se foi meu dia e meu socorro,
Saio mais religiosa que nunca,
Se preciso desse sistema –morro
De descaso, despreparo...
Ausência histórica de cuidados
Ao nosso povo...

